Em Nova York, os movimentos gastronômicos mais interessantes costumam começar silenciosamente — um chef que fecha as portas de um restaurante bem-sucedido, reforma o salão por alguns meses e reabre com um conceito novo, mais puro, mais obsessivo. Foi exatamente isso que o chef Hirohisa Hayashi fez no fim de março. Ele fechou o Hirohisa, seu restaurante japonês aclamado no SoHo com quase uma década de estrada, e reabriu no dia 31 de março o Soba Ulala, um templo dedicado ao macarrão soba artesanal, feito na hora, servido em caldos quentes ou na forma tradicional fria com molho tsuyu. Em uma cidade que já viveu ondas do ramen, do udon e do sushi omakase, o soba — fino, delicado, feito de trigo sarraceno — é o novo obcecado.
Quem É Hirohisa Hayashi
Nascido em Tóquio, Hirohisa Hayashi se formou nas cozinhas japonesas mais rigorosas antes de cruzar o Pacífico. Em Nova York, abriu o Hirohisa em 2014 e rapidamente conquistou a admiração da crítica por sua abordagem precisa e minimalista da cozinha kaiseki — a tradição japonesa de refeições sazonais compostas por múltiplos pratos pequenos. O New York Times deu duas estrelas ao restaurante, e publicações como Eater e The Infatuation o colocaram anos seguidos entre os melhores japoneses de Manhattan.
Durante a pandemia, Hayashi começou a experimentar receitas de soba em casa. O macarrão — muito mais delicado que o ramen e exigindo técnica completamente diferente — virou sua obsessão. Quando decidiu reinventar o restaurante, a escolha pelo soba foi natural: ele queria voltar ao essencial, à pureza de um único ingrediente trabalhado com precisão quase espiritual.
Fazer soba é um ato de disciplina. A massa precisa ser amassada com o peso certo, cortada com espessura uniforme, cozida no tempo exato. Um segundo a mais é o fio quebra. Um segundo a menos e fica duro. É meditativo e implacável ao mesmo tempo. Perfeito para um chef japonês formado na tradição.
O Que É Soba e Por Que Importa
Para quem não conhece, soba é um tipo de macarrão japonês feito de farinha de trigo sarraceno (buckwheat em inglês, ou "soba-ko" em japonês), frequentemente misturado com uma pequena porção de farinha de trigo para dar liga. Diferente do ramen, que é amarelado, gordo e servido em caldos densos, o soba é cinza-amarronzado, fino, elegante e tem um sabor terroso sutil do próprio trigo sarraceno. Pode ser servido de várias formas, mas as duas mais clássicas são:
- Kake soba (quente): o macarrão é servido num caldo transparente feito com dashi, shoyu e mirin, finalizado com cebolinha e wasabi.
- Zaru soba (frio): o macarrão é servido frio numa cesta de bambu, acompanhado de um molho chamado tsuyu, onde você mergulha cada porção antes de comer.
No Japão, o soba é um patrimônio cultural. Há famílias que fazem o macarrão há gerações, e algumas sobarias de Tóquio ou Kyoto têm listas de espera tão longas quanto os melhores sushis. Em Nova York, porém, o soba sempre foi ofuscado pelo ramen e pelo udon. O Soba Ulala chega para mudar isso.
O Menu: Simplicidade Extrema
O cardápio do Soba Ulala é deliberadamente curto. São cerca de 8 a 10 pratos principais, sendo metade versões quentes e metade frias. Entre os destaques:
- Seiro soba: o clássico frio, servido em cesta de bambu com molho tsuyu — a versão mais pura, que destaca a qualidade do macarrão acima de tudo.
- Tempura soba: macarrão quente em caldo com tempura de camarão e vegetais crocantes — um contraste perfeito entre caldo fumegante e crocância.
- Kamo nanban soba: a versão com pato — caldo mais rico, fatias de pato rosado, cebolinha caramelizada. O prato preferido dos japoneses residentes em Nova York.
- Tori soba com yuzu: soba quente com frango, finalizado com raspas de yuzu, trazendo frescor cítrico ao caldo.
Há também uma pequena seleção de aperitivos — legumes em conserva, ovos marinados em shoyu, tofu frito — que Hayashi serve como otsumami, os acompanhamentos ideais para um cálice de saquê enquanto se espera o prato principal.
Endereço: SoHo, Manhattan (mesmo endereço do antigo Hirohisa)
Cozinha: Soba artesanal japonês
Preço estimado: US$ 28-55 por pessoa (com bebida)
Metrô: Linhas 6, J, Z, N, Q, R, W até Canal St, ou Linha C/E até Spring St
Reservas: Recomendadas, especialmente almoço de fim de semana. Aceita walk-in, mas prepare-se para esperar
O que pedir: Seiro soba (o clássico frio) + um aperitivo + saquê gelado. Se vier no inverno, troque pelo kamo nanban soba
Horário: Almoço e jantar, com horário reduzido de lunch entre 12h-14h30
Dica: O macarrão frio ensina mais sobre o soba do que o quente. Comece pelo zaru/seiro
O SoHo é a Cena Japonesa Emergente
O SoHo é um bairro que muitos brasileiros associam às lojas de grife, aos edifícios de ferro fundido do século 19 e às galerias de arte — o que tudo está certo. Mas nos últimos anos, a região tem se firmado também como um dos pontos mais interessantes da cena japonesa contemporânea de Nova York. Além do Soba Ulala, o bairro abriga o Nakamura (ramen), o Yuji Ramen, o Raku, o Sushi by Bou e vários izakayas discretos escondidos em ruas laterais.
Para o viajante brasileiro, jantar no SoHo combina muito bem com outras atividades do bairro: caminhar pela Prince Street e pela Spring Street admirando as vitrines, visitar a New Museum nas proximidades do Bowery, tomar café num dos inúmeros cafés artesanais da região ou simplesmente se perder nas ruas paralelepipedadas — que, aliás, são uma das poucas áreas de Manhattan onde ainda se vê o calçamento original do século 19.

Por Que Vale Colocar o Soba Ulala no Roteiro
Em uma cidade com milhares de restaurantes, por que separar uma refeição para um lugar dedicado exclusivamente a macarrão? Porque o Soba Ulala é uma daquelas experiências que só Nova York pode oferecer: um chef experiente decidindo apagar tudo o que construiu para se dedicar a uma única coisa, feita com obsessão. É raro. É bonito. E o resultado é um prato tão simples, tão puro, que ele te força a prestar atenção de um jeito diferente.
Para brasileiros acostumados com restaurantes japoneses do tipo "rodízio com combinados", o Soba Ulala vai ser uma revelação. Aqui, cada tigela é pensada individualmente, cada fio de macarrão cortado à mão, cada caldo feito do zero. É a antítese da comida de conveniência — e, por isso mesmo, é um dos lugares mais especiais para uma refeição tranquila no meio de uma viagem intensa a Nova York.
Se você precisa de uma pausa do turbilhão da cidade, poucos lugares oferecem o tipo de calma meditativa do Soba Ulala. Entre pelo almoço, peça um seiro soba, tome um chá quente e fique em silêncio por 45 minutos. É uma forma de autocuidado gastronômica.
Abril de 2026 é um mês excepcional para a gastronomia nova-iorquina, e o Soba Ulala é uma das razões. Reserve, vá, desacelere. Você vai sair dali entendendo por que, no Japão, as sobarias mais respeitadas são tratadas quase como templos — e por que, a partir de agora, o SoHo tem a sua.

