Em 1985, o International Center of Photography, na época instalado na Quinta Avenida com a rua 94, inaugurou uma exposição de um fotógrafo brasileiro de 41 anos que trabalhava até então pela agência Magnum e era praticamente desconhecido do público americano. A mostra era sobre a fome na região do Sahel, na África. As fotografias, em preto e branco profundo, mostravam corpos magros, olhos enormes, crianças esperando a morte com uma dignidade impossível. O público saía calado. Os jornais de Nova York escreveram que aquele brasileiro tinha trazido de volta ao fotojornalismo uma gravidade moral que parecia perdida desde os tempos de W. Eugene Smith e Dorothea Lange. O nome do fotógrafo era Sebastião Salgado. Para muitos nova-iorquinos, foi a primeira vez que eles ouviram aquele nome. Não seria a última.
Sebastião Salgado
🇧🇷 Aimorés, Minas Gerais, 1944 · Fotógrafo · Fundador do Instituto Terra
Economista de formação, virou fotógrafo nos anos 1970 e documentou o trabalho humano, os movimentos migratórios e a natureza em todos os continentes.
De Aimorés a Paris — e Depois a Nova York
Sebastião Salgado nasceu em 1944 em Aimorés, cidade pequena do interior de Minas Gerais, na divisa com o Espírito Santo. Filho de fazendeiros, cresceu no Vale do Rio Doce quando aquela região ainda tinha Mata Atlântica de pé. Estudou economia na USP, fez mestrado na mesma área, e em 1969, perseguido pelo regime militar brasileiro por suas conexões com a esquerda estudantil, fugiu com a mulher Lélia Wanick para a França. Foi em Paris que Salgado descobriu a fotografia, quando Lélia comprou uma câmera para a faculdade de arquitetura dela e Sebastião, curioso, começou a brincar com o equipamento. O que começou como hobby virou, em poucos anos, obsessão.
Em 1979, Salgado entrou para a Magnum Photos, a agência fotográfica cooperativa fundada por Henri Cartier-Bresson e Robert Capa. A Magnum tinha escritório em Nova York, na Park Avenue South, e era o principal canal de distribuição do trabalho de fotojornalistas sérios para revistas americanas como Life, Time, Newsweek e The New York Times Magazine. Foi através da Magnum que o nome de Salgado começou a circular em redações de Manhattan. Editores americanos descobriram um fotógrafo que não tinha medo de gastar meses num único projeto, que exigia tempo, paciência e viagens longas, e que voltava com imagens que pareciam vir de outro século.
O Salto Internacional com "Sahel"
O trabalho que estabeleceu Salgado como nome internacional foi "Sahel: L'homme en détresse", feito entre 1984 e 1986 no norte da África durante a pior seca das últimas décadas. Salgado trabalhou ao lado dos Médicos Sem Fronteiras, viveu em acampamentos de refugiados e fotografou a fome sem filtros, mas também sem sensacionalismo. A exposição estreou em Paris e foi levada depois para Nova York, onde o ICP a apresentou em 1986. Foi a partir dessa exposição que Salgado virou referência obrigatória no circuito de fotografia documental americano.
Os Grandes Projetos Monumentais
A obra de Salgado é organizada em séries longas, cada uma delas o resultado de anos de trabalho. As mais conhecidas são:
Workers (1986-1993)
"Workers: An Archaeology of the Industrial Age" documentou o trabalho manual em escala global, em 26 países. A imagem mais famosa dessa série é a da mina de ouro a céu aberto de Serra Pelada, no Pará, onde 50 mil garimpeiros cobertos de lama subiam e desciam escadas de madeira como formigas. Quando essa fotografia foi publicada pela primeira vez em Nova York, na revista New York Times Magazine, causou choque estético tão grande que, durante anos, muitos americanos acreditaram que a imagem era uma pintura do século XIX. A série inteira foi exposta no ICP em 1993.
Migrations e Exodus (1993-1999)
Trabalho de seis anos documentando movimentos migratórios em mais de 40 países — refugiados kosovares, ruandeses fugindo do genocídio, mexicanos atravessando a fronteira com os Estados Unidos, chineses indo do campo para a cidade. Quando a série foi exibida em Nova York, ela coincidiu com o recrudescimento do debate sobre imigração nos EUA, e ganhou uma relevância política que Salgado não necessariamente pretendia.
Genesis (2004-2013)
Depois de anos fotografando sofrimento humano, Salgado decidiu mudar completamente o foco. "Genesis" é uma celebração das partes do planeta ainda não destruídas pela ação humana: Antártida, Galápagos, Papua Nova Guiné, Sibéria, Etiópia profunda, florestas indígenas da Amazônia. A exposição do projeto teve uma das passagens mais bem-sucedidas de Salgado pelo International Center of Photography nos anos 2010.
Amazônia (2013-2021)
O último grande projeto de Salgado foi dedicado à Amazônia brasileira, com foco especial em povos indígenas e paisagens intocadas. Quando a exposição "Amazônia" chegou aos Estados Unidos em 2022, passando por espaços em Nova York, tornou-se um evento. A mostra combinava as fotografias em preto e branco com trilha sonora original assinada por Jean-Michel Jarre e instalações imersivas. Foi um dos últimos grandes momentos públicos da carreira de Salgado.
MoMA: 11 W 53rd St — acervo de fotografia do 5o andar inclui obras de "Workers" e "Exodus"
Metropolitan Museum of Art: 1000 5th Ave — coleção permanente de fotografia contemporânea
International Center of Photography (ICP): 79 Essex St — o espaço que apresentou Salgado pela primeira vez aos americanos em 1985, continua sendo o museu com a relação mais longa com a obra dele
Whitney Museum: 99 Gansevoort St — coleção de fotografia e exposições rotativas
Metrô: F até Delancey St (ICP) · E/M até 53rd St (MoMA) · 4/5/6 até 86th St (Met)
O Estilo Salgado
A fotografia de Sebastião Salgado tem uma assinatura visual impossível de confundir. É sempre em preto e branco — ele nunca aderiu ao digital colorido mesmo na era do Instagram — com alto contraste, composições cuidadosamente construídas quase como pinturas clássicas, e uma atenção quase religiosa à luz natural. Salgado trabalhou por décadas com filmes Tri-X da Kodak, que conferiam às imagens uma granulação característica, e imprimia ele mesmo as provas em laboratório até o fim da carreira.
A crítica que ele recebeu ao longo dos anos, especialmente da parte de teóricos americanos da fotografia documental, foi a de "esteticização da miséria". Autores como Susan Sontag chegaram a questionar se a beleza formal das imagens de Salgado não acabava anestesiando o observador para o sofrimento retratado. Salgado respondeu várias vezes a essas críticas, em entrevistas a jornais de Nova York, dizendo que beleza e denúncia não são mutuamente exclusivas, e que sua intenção era sempre devolver dignidade aos fotografados, não explorá-los. O debate seguiu aberto até o fim da vida dele, e provavelmente seguirá aberto depois.
"Sebastião Salgado não fotografou o mundo. Ele fotografou as pessoas que o mundo tenta esquecer que existem. Garimpeiros, refugiados, indígenas, trabalhadores rurais, crianças em acampamentos. E conseguiu colocar essas imagens nas paredes do MoMA e do Metropolitan, nos livros mais bonitos já editados sobre fotografia, nos jornais mais lidos do planeta. Poucos brasileiros fizeram tanto com tão pouca vontade de aparecer." — Michelle Bonhote
O Instituto Terra e a Segunda Vida
Em 1998, Sebastião e Lélia Salgado fundaram o Instituto Terra, organização sem fins lucrativos dedicada a reflorestar a fazenda da família em Aimorés, que estava completamente degradada. Em pouco mais de duas décadas, o Instituto plantou mais de dois milhões de árvores da Mata Atlântica no Vale do Rio Doce. A região, antes de solo nu, hoje é reserva particular do patrimônio natural, com fauna de volta, nascentes restauradas e programas educativos que formam agentes ambientais locais. O Instituto Terra virou modelo internacional de restauração de bioma e inspirou iniciativas semelhantes nos Estados Unidos, inclusive em parcerias com universidades de Nova York como a Columbia e a NYU.
Salgado costumava dizer que a fotografia da Amazônia e o Instituto Terra eram a mesma obra — uma obra de escuta da floresta. Para ele, não bastava denunciar a destruição; era preciso também plantar, refazer, devolver. O Instituto Terra virou referência em Nova York especialmente em círculos ambientais e entre doadores filantrópicos americanos que acompanharam o projeto ao longo das décadas.
O Legado em Nova York
Sebastião Salgado morreu em 2025, aos 81 anos, depois de anos enfrentando sequelas de uma malária contraída durante o trabalho em Genesis na África. Quando a notícia chegou a Nova York, o ICP reabriu sua exposição permanente dedicada a ele, a prefeitura de Manhattan organizou um tributo público em Bryant Park, e o New York Times publicou um obituário de oito páginas no caderno cultural de domingo. Para muita gente no circuito de fotografia americano, perder Salgado foi como perder o último representante vivo de uma era em que o fotojornalismo acreditava na sua própria importância moral.
Um roteiro completo sobre Sebastião Salgado em Nova York começa no ICP (79 Essex St), sobe para o MoMA (11 W 53rd St) onde há obras permanentes no 5o andar, e pode terminar no Metropolitan Museum of Art, na Quinta Avenida com a 82nd St. Reserve um dia inteiro. Entradas juntas ficam em torno de USD 70. Leve tempo: as fotografias de Salgado pedem uma observação lenta, e é essa lentidão que as distingue do consumo rápido de imagens na era do scroll infinito.
Por Que Salgado Importa Para Brasileiros em NY
Para um brasileiro que visita Nova York e quer entender quem somos no cenário cultural global, encontrar uma fotografia de Sebastião Salgado numa parede do MoMA é uma experiência difícil de traduzir. Não é só orgulho nacional — é o reconhecimento de que um brasileiro, partindo de uma cidadezinha do interior de Minas e passando por todas as dificuldades de um exílio político, conseguiu produzir uma obra que continua dialogando, em pé de igualdade, com qualquer nome do panteão universal da fotografia do século XX. Ele conseguiu isso sem virar nome fácil, sem fazer concessões comerciais, sem abandonar o Brasil. E fez tudo isso mantendo Nova York como um dos palcos onde a obra dele foi apresentada ao mundo com a seriedade que merecia.
A próxima vez que você entrar no MoMA ou passar pelo ICP num domingo frio de janeiro em Manhattan, procure pelo nome dele nas paredes. É quase certo que você vai encontrar. E, se tiver sorte, vai sair de lá com o mesmo silêncio que os nova-iorquinos de 1986 levaram para casa depois de ver pela primeira vez as imagens do Sahel.
Os Livros de Salgado Disponíveis em Nova York
Uma das formas mais completas de entrar na obra de Sebastião Salgado é pelos livros, e Nova York é uma das melhores cidades do mundo para comprá-los. As edições originais publicadas pela Taschen, grande parceira editorial de Salgado durante décadas, estão disponíveis em livrarias como a Taschen Store, no SoHo (107 Greene St), onde ocasionalmente há edições assinadas pelo próprio fotógrafo em suas passagens por Nova York em vida. A livraria do MoMA Design Store, em Midtown, mantém em estoque permanente "Genesis", "Workers", "Exodus" e "Amazônia". A livraria do ICP, no Lower East Side, tem a seleção mais completa e às vezes inclui títulos raros esgotados. Para quem prefere livros usados ou de segunda mão, a Strand Bookstore, na 12th St com Broadway, frequentemente tem cópias de edições mais antigas a preços mais acessíveis — vale revirar as prateleiras de fotografia no segundo andar.
Documentários Sobre Salgado
Além dos livros, existem dois documentários essenciais. "O Sal da Terra" (2014), dirigido por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado (filho de Sebastião), ganhou prêmio especial do júri em Cannes, foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário e teve lançamento nos cinemas de arte de Nova York como o Film Forum e o IFC Center. O filme é hoje leitura obrigatória para qualquer pessoa interessada em fotografia documental. O segundo documentário relevante é "Amazônia: From the Forest", lançado em 2022 junto com a exposição itinerante, e exibido em sessões especiais de museus nova-iorquinos durante a temporada da mostra.
A Influência Sobre Uma Geração de Fotógrafos
Entre as maiores contribuições de Sebastião Salgado para a fotografia dos últimos 50 anos está o fato de que ele inspirou uma geração inteira de fotógrafos brasileiros e latino-americanos a enxergar a fotografia documental como profissão viável e respeitada. Nomes como Luiz Vasconcelos, André Vieira, Lalo de Almeida, Mauricio Lima, Tatiana Cardeal e tantos outros citam Salgado como referência fundamental. Muitos desses fotógrafos hoje têm trabalho distribuído em Nova York pelas mesmas agências que representaram Salgado — Contact Press, Redux, Getty, a própria Magnum — e expõem nos mesmos museus que acolheram as exposições históricas dele.
Para além do círculo brasileiro, Salgado influenciou diretamente fotógrafos americanos como Eugene Richards, Susan Meiselas e James Nachtwey, que falaram em entrevistas sobre o impacto que o trabalho dele teve em suas carreiras. Essa cadeia de influência é hoje parte do DNA da fotografia documental contemporânea. Quando você abre hoje uma edição do New Yorker ou do New York Times Magazine e encontra um ensaio fotográfico em preto e branco sobre trabalhadores, refugiados ou povos indígenas, há uma grande chance de que o autor da reportagem tenha sido moldado, direta ou indiretamente, pelo trabalho de Salgado.
Perguntas Frequentes
Quem foi Sebastião Salgado?
Sebastião Salgado (1944-2025) foi fotógrafo brasileiro nascido em Aimorés (MG), formado em economia na USP, que virou fotógrafo em Paris nos anos 1970 após fugir do regime militar em 1969. Entrou para a Magnum Photos em 1979 e ficou famoso mundialmente com a exposição sobre a fome no Sahel no International Center of Photography de Nova York em 1986. Documentou trabalho humano, migrações e natureza em todos os continentes, sempre em preto e branco.
Onde ver fotos de Sebastião Salgado em Nova York?
No MoMA (11 W 53rd St, 5º andar do acervo fotográfico com obras de Workers e Exodus), International Center of Photography (79 Essex St, LES, museu com relação mais longa com sua obra desde 1985), Metropolitan Museum of Art (1000 5th Ave, coleção permanente de fotografia contemporânea) e Whitney Museum (99 Gansevoort St). Reserve um dia inteiro para o roteiro completo, com entradas somadas em torno de US$ 70.
Quais os grandes projetos de Sebastião Salgado?
Workers (1986-1993), documentação do trabalho manual em 26 países incluindo a lendária foto da mina de Serra Pelada com 50 mil garimpeiros. Migrations/Exodus (1993-1999), sobre refugiados em 40 países. Genesis (2004-2013), celebração de regiões intocadas do planeta como Antártida, Galápagos e Amazônia. Amazônia (2013-2021), seu último grande projeto focado em povos indígenas com trilha sonora de Jean-Michel Jarre.
O que é o Instituto Terra de Sebastião Salgado?
Organização sem fins lucrativos fundada em 1998 por Sebastião e Lélia Salgado para reflorestar a fazenda da família em Aimorés (MG), que estava completamente degradada. Em pouco mais de duas décadas, o Instituto plantou mais de dois milhões de árvores de Mata Atlântica no Vale do Rio Doce, com fauna de volta e nascentes restauradas. Virou modelo internacional de restauração de bioma, inspirando parcerias com Columbia e NYU em Nova York.
Quais documentários sobre Sebastião Salgado assistir?
O Sal da Terra (2014), dirigido por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado (filho de Sebastião), ganhou prêmio especial do júri em Cannes, foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário e teve lançamento no Film Forum e IFC Center em Nova York. Amazônia: From the Forest (2022) foi exibido em sessões especiais de museus nova-iorquinos durante a temporada da mostra. Os livros de Salgado publicados pela Taschen estão disponíveis na Taschen Store no Soho e na livraria do MoMA.




