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Pelé no New York Cosmos: O Rei que Vendeu Soccer aos Americanos
Perfil 🇧🇷

Pelé no New York Cosmos: O Rei que Vendeu Soccer aos Americanos

Por Fortes5 de abril de 202615 min

Em junho de 1975, uma conferência de imprensa no 21 Club da West 52nd Street parou Manhattan por algumas horas. Na mesa estavam Steve Ross, presidente da Warner Communications, Clive Toye, diretor do New York Cosmos, e um brasileiro de 34 anos que tinha se aposentado do Santos meses antes e dito ao mundo que não voltaria mais aos gramados. O brasileiro era Edson Arantes do Nascimento. O contrato anunciado ali, avaliado em cerca de 4,7 milhões de dólares por três temporadas, era na época o maior da história do esporte profissional. Naquele dia, Pelé deixou de ser apenas o maior jogador de futebol do planeta e virou algo mais estranho e mais ambicioso: o homem encarregado de ensinar um país inteiro a gostar de um esporte que ele ainda não entendia.

Pelé jogando pelo New York Cosmos contra o Santos
Pelé em coletiva do New York Cosmos

Edson Arantes do Nascimento — Pelé

🇧🇷 Três Corações, Minas Gerais · Jogador de Futebol · 1940-2022

Tricampeão mundial pela Seleção Brasileira, jogou pelo New York Cosmos de 1975 a 1977 e transformou o soccer nos Estados Unidos.

O Cosmos Antes de Pelé

Para entender o tamanho do que aconteceu em Nova York entre 1975 e 1977, é preciso entender como o futebol existia nos Estados Unidos antes da chegada do Rei. A NASL, sigla para North American Soccer League, era um campeonato pequeno, mal estruturado, com estádios vazios e jogadores que mal conseguiam pagar aluguel. O New York Cosmos jogava diante de plateias de 3 a 5 mil pessoas num estádio da ilha de Randall. O esporte era visto pelos americanos como uma curiosidade europeia, um jogo sem pontuação suficiente, sem tempo parado, sem comerciais — portanto, impossível de ser televisionado do jeito que o beisebol, o futebol americano e o basquete eram.

Foi nesse cenário que a Warner Communications, gigante de mídia dona do Cosmos, decidiu fazer uma aposta maluca: contratar o maior jogador da história, pagar o que fosse preciso, e usar o brilho de Pelé para criar um esporte onde ele quase não existia. Henry Kissinger, então secretário de Estado americano e fã declarado de futebol, ajudou nos bastidores a convencer o governo brasileiro a liberar Pelé do seu "serviço à pátria" de embaixador informal. O contrato foi fechado. O mundo parou.

A Estreia no Downing Stadium

A estreia oficial de Pelé pelo Cosmos aconteceu em 15 de junho de 1975, num amistoso contra o Dallas Tornado em Randall's Island. A arquibancada, que normalmente ficava às moscas, estava superlotada. Jornalistas do mundo inteiro transmitiam o jogo. Pelé marcou de cabeça aos 27 do segundo tempo, o Cosmos empatou em 2 a 2, e os americanos começaram a entender, devagar, que algo diferente estava acontecendo no esporte mais ignorado do país.

Giants Stadium — Onde a Magia Aconteceu

Em 1977, o Cosmos mudou seus jogos para o Giants Stadium, em East Rutherford, New Jersey, do outro lado do rio Hudson. O estádio tinha capacidade para mais de 76 mil pessoas. Para o jogo contra o Fort Lauderdale Strikers nos playoffs daquele ano, 77.691 torcedores lotaram as arquibancadas — recorde absoluto da NASL e número maior do que qualquer partida de futebol nos EUA até então. O Giants Stadium foi demolido em 2010 e hoje no local fica o MetLife Stadium, que recebeu jogos da Copa do Mundo de 2026.

Os Anos do Giants Stadium

O Cosmos de Pelé virou fenômeno pop em Nova York. Mick Jagger, Robert Redford, Henry Kissinger, Barbra Streisand e Muhammad Ali apareciam nos camarotes do Giants Stadium. O Studio 54, que abriria portas em 1977, adotou o Cosmos como time oficial de seus frequentadores, e era comum ver jogadores do time encerrando a noite na pista de dança mais famosa do mundo. O marketing da Warner era agressivo: pôsteres de Pelé em todas as estações de metrô, camisas do Cosmos vendidas em lojas de departamento, comerciais de TV em horário nobre.

Dentro de campo, o time foi sendo reforçado. Vieram Giorgio Chinaglia, Franz Beckenbauer em 1977, e Carlos Alberto, capitão da Seleção brasileira de 1970, que seguiu Pelé até Nova York. O Cosmos montou o que a imprensa americana chamou na época de "o Real Madrid dos anos 1970". Em 1977, o time foi campeão da Soccer Bowl, o equivalente da liga ao Super Bowl, e Pelé ergueu o troféu num estádio lotado em Portland, Oregon.

Pelé na despedida de sua carreira com a camisa do Cosmos

A Vida em Connecticut

Apesar do palco ser Nova York, Pelé morou em Connecticut durante os três anos de Cosmos. A família alugou uma casa em uma região arborizada próxima a New York, o que permitia a Pelé, a esposa Rosemeri e aos filhos uma vida mais tranquila, longe do assédio constante que sofreriam em Manhattan. Ele dirigia ele próprio até os treinos em Hempstead, Long Island, e até os jogos no Giants Stadium. Amigos dessa época contam que ele gostava especialmente de parar em diners pelo caminho para tomar café e ser tratado como uma pessoa qualquer — um luxo raro para o homem mais famoso do esporte mundial.

1o de Outubro de 1977 — A Despedida

O jogo de despedida de Pelé aconteceu em 1 de outubro de 1977 no Giants Stadium, e foi um espetáculo montado com a grandiosidade que a Warner sabia fazer. O adversário escolhido foi o Santos, o clube onde Pelé tinha construído 90 por cento de sua carreira. A partida foi dividida em dois tempos: no primeiro, Pelé jogou pelo Cosmos; no segundo, ele trocou de camisa e entrou em campo pelo Santos. Marcou de falta ainda vestindo o branco do Cosmos. Chorou ao abraçar Carlos Alberto no meio do gramado. Chorou de novo ao ouvir 75 mil pessoas cantando seu nome em inglês, português e espanhol.

Antes do jogo começar, Pelé fez um discurso no centro do gramado, com o microfone na mão, que ficou famoso para sempre. Ele pediu a todos os presentes que repetissem três vezes, com ele, uma palavra. A palavra era "love". "Love, love, love." Foi a forma mais simples e mais poderosa que o brasileiro mais famoso do mundo encontrou para dizer adeus ao palco onde tinha passado os últimos três anos.

"Quando você quer medir o impacto de um atleta, pergunte não pelos títulos mas pelo que havia antes e pelo que havia depois. Antes de Pelé, soccer era um nicho teimoso nos Estados Unidos. Depois de Pelé, virou realidade. Tudo o que veio depois — a Copa de 1994, a MLS, o Messi no Inter Miami, a Copa de 2026 com final no MetLife Stadium — começou naquele gramado do Giants Stadium." — Fortes

O Legado que Durou Meio Século

A NASL quebrou em 1984, sete anos depois da saída de Pelé, e o futebol americano profissional viveu quase uma década de silêncio até a Copa do Mundo de 1994, sediada nos Estados Unidos. Não é coincidência que a FIFA tenha escolhido os EUA como sede daquele Mundial: uma das condições impostas foi que o país criasse uma liga profissional estável, o que levou ao nascimento da Major League Soccer (MLS) em 1996. A MLS existe hoje, com dezenas de franquias e estádios próprios, porque uma geração de crianças americanas dos anos 1970 cresceu vendo Pelé na televisão. Entre essas crianças estavam os pais de jogadores como Landon Donovan e Clint Dempsey, e os executivos que décadas depois construiriam Atlanta United, LAFC e o New York City FC.

Em 2026, quando a Copa do Mundo volta aos Estados Unidos com final marcada justamente em East Rutherford — no MetLife Stadium construído sobre o terreno do antigo Giants Stadium — fica difícil não pensar em 1 de outubro de 1977 como o dia zero de tudo isso. Pelé plantou uma semente num país que não sabia o que estava recebendo. Cinquenta anos depois, a semente virou floresta.

Para Brasileiros que Visitam Nova York

MetLife Stadium: 1 MetLife Stadium Dr, East Rutherford, NJ — construído no local onde ficava o Giants Stadium do Cosmos. Para jogos de futebol e sede da final da Copa do Mundo 2026
21 Club: 21 W 52nd St — restaurante histórico onde o contrato de Pelé foi anunciado em 1975 (fechou em 2020, mas a fachada icônica com os jóqueis segue de pé)
New York Cosmos (atual): o time foi refundado em 2010 e joga hoje em uma liga menor, com ligações diretas com a história do clube original
Dica: se você viaja em junho-julho de 2026, reserve com muita antecedência hospedagem em Nova York. A Copa vai levar preços às alturas

Pelé e Nova York Hoje

Pelé morreu em dezembro de 2022, no Hospital Albert Einstein de São Paulo. Os jornais de Nova York deram capa. O New York Times publicou um obituário de cinco mil palavras, escrito por um jornalista que tinha coberto os jogos do Cosmos em 1977. O prefeito Eric Adams declarou um minuto de silêncio nos estádios municipais. Durante uma semana, murais espontâneos com o rosto de Pelé apareceram em paredes do Brooklyn, do Queens e do East Village. Uma cidade que nunca tinha sido especialmente ligada ao futebol mostrou que se lembrava, sim, do brasileiro que cinco décadas antes tinha passado três anos morando em Connecticut e jogando diante dela.

Para os brasileiros que visitam Nova York hoje, caminhar pelo que resta daquela história é um exercício de memória afetiva. O Giants Stadium não existe mais. O 21 Club fechou. Randall's Island virou parque. Mas o MetLife está lá, imenso, e em 2026 receberá a final da Copa. Olhar o estádio e pensar "foi aqui que tudo começou" é uma das experiências mais brasileiras que um turista pode ter numa cidade que nunca deixou de ser, nos seus cantos certos, também um pedaço do Brasil.

Os Bastidores que Poucos Contam

Existe uma parte da história do Pelé no Cosmos que raramente aparece nas biografias oficiais e que merece ser conhecida. Era um universo de caos absoluto nos vestiários. O time reunia jogadores de doze nacionalidades diferentes, com gente falando italiano, alemão, português, inglês, sérvio e espanhol ao mesmo tempo. Pelé funcionava como mediador natural desses conflitos. Ele tinha autoridade sem precisar levantar a voz. Colegas de Cosmos contaram, anos depois, que nunca viram Pelé bater boca com ninguém, nunca o viram se recusar a dar entrevista, nunca o viram dizer não a uma criança que pedia autógrafo.

Havia também a dimensão diplomática. Durante os três anos em Nova York, Pelé recebeu convites para todas as embaixadas, para jantares na Casa Branca, para eventos da ONU. Ele usava esses espaços com inteligência, promovendo projetos sociais do Brasil, programas de alfabetização, doações de equipamento esportivo para escolas públicas americanas. O Departamento de Estado americano montou uma agenda informal para Pelé durante a temporada, aproveitando cada viagem do Cosmos para fora de Nova York como oportunidade de soft power. Pelé topou tudo. Achava que era parte do trabalho.

O Dia em que Pelé Parou a Rua 5a Avenida

Um episódio pouco contado: em junho de 1976, Pelé estava passeando com os filhos pela 5a Avenida num sábado de manhã, entrando e saindo de lojas como qualquer turista. Um grupo de crianças brasileiras que estava de férias em Nova York o reconheceu na porta da FAO Schwarz, a loja de brinquedos. Em questão de minutos, um aglomerado de brasileiros se formou. Depois vieram os italianos, depois os argentinos, depois os americanos que mesmo sem saber direito quem era aquele senhor assumiram que tinha que ser alguém importante. A polícia de Manhattan teve que interromper o tráfego da 5a Avenida entre as ruas 58 e 59 por quase uma hora. Pelé ficou dando autógrafos até o último papel disponível. Jornais noticiaram o episódio como "o dia em que um estrangeiro parou a Quinta".

O Impacto Cultural Fora de Campo

A presença de Pelé em Nova York não ficou restrita ao esporte. Ele apareceu em capas de revistas como Esquire e Sports Illustrated, fez um ensaio fotográfico para a Warhol Factory (sim, Andy Warhol fez serigrafias de Pelé, inspirado por Muhammad Ali), gravou comerciais de TV americanos para marcas globais, e deu uma das primeiras entrevistas longas da carreira ao programa "60 Minutes" da CBS. Naquela entrevista, falou em inglês hesitante mas articulado sobre racismo no futebol, sobre as promessas não cumpridas pelo Brasil com os jogadores negros e pobres, e sobre por que ele tinha aceitado jogar num país que mal sabia o que o futebol era. "Porque futebol é alegria", disse, num trecho que virou meme décadas depois. "E alegria, em qualquer língua, é a mesma coisa."

Para brasileiros que visitam Nova York hoje, é impossível separar a cidade dos rastros invisíveis que Pelé deixou ali. Eles não são placas comemorativas nem monumentos de bronze. São pequenas coisas. Um bar em Astoria onde o dono guarda uma camisa do Cosmos emoldurada. Uma praça em Jersey City com um grafite pequeno na parede lateral que diz "O Rei Morou Aqui". Uma escola pública no Brooklyn que recebeu doação de bolas do time em 1976 e ainda usa o mesmo pátio para aulas de educação física. O legado esportivo está nos livros de história. O legado humano continua acontecendo, silenciosamente, em cantos da cidade onde ninguém está filmando.

Tags Pelé New York Cosmos Soccer Futebol Perfil História

Perguntas Frequentes

Quando Pelé jogou pelo New York Cosmos?

Pelé jogou pelo New York Cosmos de 1975 a 1977, após assinar contrato de US$ 4,7 milhões por três temporadas (o maior da história do esporte profissional na época). O anúncio foi feito em junho de 1975 no 21 Club da West 52nd Street, com Steve Ross (Warner Communications) e Clive Toye. Henry Kissinger ajudou nos bastidores a convencer o governo brasileiro a liberá-lo. A estreia foi em 15 de junho de 1975 contra o Dallas Tornado em Randall's Island.

Onde foi o jogo de despedida de Pelé?

O jogo de despedida de Pelé aconteceu em 1º de outubro de 1977 no Giants Stadium, em East Rutherford (NJ), contra o Santos. A partida foi dividida em dois tempos: no primeiro Pelé jogou pelo Cosmos, no segundo trocou de camisa e entrou pelo Santos. Marcou de falta, chorou abraçando Carlos Alberto e fez o famoso discurso pedindo à plateia de 75 mil pessoas para repetirem três vezes a palavra 'love'.

Como Pelé transformou o soccer nos Estados Unidos?

Antes de Pelé, soccer era nicho teimoso nos EUA, com o Cosmos jogando para 3-5 mil pessoas em Randall's Island. Em 1977, 77.691 torcedores lotaram o Giants Stadium no playoff contra o Fort Lauderdale, recorde da NASL. A Major League Soccer (MLS) foi criada em 1996 como exigência da FIFA para sediar a Copa de 1994, ligação direta com o legado de Pelé. A final da Copa 2026 será no MetLife Stadium, construído sobre o terreno do antigo Giants Stadium.

Onde Pelé morou quando jogou em Nova York?

Apesar do palco ser Nova York, Pelé morou em Connecticut durante os três anos de Cosmos, numa casa em região arborizada próxima à cidade, para dar à família Rosemeri e aos filhos uma vida mais tranquila longe do assédio de Manhattan. Ele dirigia o próprio carro até os treinos em Hempstead (Long Island) e até os jogos no Giants Stadium, gostando de parar em diners pelo caminho para ser tratado como pessoa comum.

Onde ver lugares ligados a Pelé em Nova York hoje?

O MetLife Stadium (1 MetLife Stadium Dr, East Rutherford NJ) foi construído no local do Giants Stadium do Cosmos e sediará a final da Copa do Mundo 2026. O 21 Club (21 W 52nd St), restaurante onde o contrato foi anunciado em 1975, fechou em 2020 mas a fachada icônica segue de pé. O New York Cosmos foi refundado em 2010 e joga hoje em liga menor. Reserve hospedagem com muita antecedência se for em junho-julho de 2026.

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